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Expiação Humana

Um tema que muitos debatem por séculos é a morte de Yeshua, se poderia ter um caráter expiatório e ou, se existe a possibilidade dentro do pensamento judaico a expiação a partir da morte de um ser humano.

Como bem nos ensina a Torah e o Tanak, temos que ter pesos justos e medida justa em todos os aspectos de nossas vidas.

“Na tua casa não terás dois tipos de efa, um grande e um pequeno.
Peso inteiro e justo terás; efa inteiro e justo terás; para que se prolonguem os teus dias na terra que te dará o Senhor teu D’us.
Porque abominação é ao Senhor teu D’us todo aquele que faz isto, todo aquele que fizer injustiça. ”   Deut 25: 14-16

“Dois pesos diferentes e duas espécies de medida são abominação ao Senhor, tanto um como outro. ”   Prov 20:10

Olhando para a parasha dessa semana, vemos a questão de Finéias (Pinchás), que agindo fervorosamente…..vejamos:

“E eis que veio um homem dos filhos de Israel, e trouxe a seus irmãos uma midianita, à vista de Moisés, e à vista de toda a congregação dos filhos de Israel, chorando eles diante da tenda da congregação.
Vendo isso Finéias, filho de Eleazar, o filho de Arão, sacerdote, se levantou do meio da congregação, e tomou uma lança na sua mão;
E foi após o homem israelita até à tenda, e os atravessou a ambos, ao homem israelita e à mulher, pelo ventre; então a praga cessou de sobre os filhos de Israel. E os que morreram daquela praga foram vinte e quatro mil.
Então o Senhor falou a Moisés, dizendo:
Finéias, filho de Eleazar, o filho de Arão, sacerdote, desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi zeloso com o meu zelo no meio deles; de modo que, no meu zelo, não consumi os filhos de Israel.
Portanto dize: Eis que lhe dou a minha aliança de paz;
E ele, e a sua descendência depois dele, terá a aliança do sacerdócio perpétuo, porquanto teve zelo pelo seu D’us, e fez expiação pelos filhos de Israel.”     Números 25:6-13

Aqui vemos uma declaração do Eterno na Torah, nos informando que o ato de Finéias, (atravessar duas pessoas com uma lança) foi um ato expiatório e que impediu a morte ou seja, salvou milhares dos filhos de Israel.

O Judaísmo normativo acredita sim no poder expiatório da morte dos justos. O historiador judeu ortodoxo rabino Berel Wein descreve a atitude do povo judeu que sofreu atrocidades no século XVII, como segue:

Judeus alimentam esta clássica ideia de morte como uma expiação. . . a melhoria de Israel e da humanidade de alguma forma foi alavancada pelo “esticar do pescoço para o abatimento”. . . Este espírito dos judeus é verdadeiramente refletido na crônica histórica do tempo:

“… Aquele que D’us ama será castigado. Pois desde o dia que o Templo Sagrado foi destruído, os justos são abatidos pela morte por causa das iniqüidades da geração.” (Yeven Metzulah, final do capítulo 15, citado em Wein, The Triumph of Survival, 14)

Observe como Yeven Metzulah liga os poderes expiatório da morte dos justos à destruição do Templo. Agora que já não há sacrifícios do Templo, os justos morrem em nome do povo.

Outra passagem muito clara mesmo que interpretada segundo uma ótica judaica normativa, o resultado quanto ao sacrifício humano não é alterado. Mesmo para os que interpretam que o Servo sofredor nessa passagem não seja o Messias e sim o povo de Israel, ao final o sacrifício humano é realizado.

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de D’us, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; MAS O SENHOR FEZ CAIR SOBRE ELE A INIQUIDADE DE TODOS NÓS. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto FOI CORTADO DA TERRA DOS VIVENTES; PELA TRANSGRESSÃO DO MEU POVO ELE FOI ATINGIDO. E puseram a SUA SEPULTURA com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca. Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; QUANDO A SUA ALMA SE PUSER POR EXPIAÇÃO DO PECADO, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, JUSTIFICARÁ A MUITOS; PORQUE A INIQUIDADE DELES LEVARÁ SOBRE SI. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; PORQUANTO DERRAMOU A SUA ALMA NA MORTE, e foi contado com os transgressores; MAS ELE LEVOU SOBRE SI O PECADO DE MUITOS, e intercedeu pelos transgressores.” (Isaías 53:4-12)

Está claramente definido no texto que ocorre a morte de um justo como expiação pelo pecado de muitos, e sendo uma profecia, essa vem direto do Eterno, como no caso de Finéias.

Uma outra situação problemática para eles é o fato de o conceito de um MESSIAS SOFREDOR, CONHECIDO COMO MASHIACH BEN YOSEF ser amplamente aceito e conhecido na tradição judaica, e que ele TAMBÉM DEVERIA SER MORTO PARA EXPIAR PELOS PECADOS DO POVO! OU SEJA, SACRIFÍCIO HUMANO NOVAMENTE! Mas como pode? Não eram eles que diziam que Deus não aceita sacrifício humano? E este conceito de Mashiach ben Yossef veio à existência EXATAMENTE PARA SE EXPLICAR PROFECIAS COMO ESTA DE ISAÍAS 53 E TANTAS OUTRAS (como Zacarias 9, Zacarias 11, Salmos 22 e etc..) e este é o principal conceito de Mashiach do Judaísmo rabínico ANTIGO, a vasta maioria dos rabinos mais antigos e mais importantes de todos os tempos CRIAM QUE O SERVO SOFREDOR ERA O MESSIAS, esse conceito de que o servo sofredor é o povo de Israel é muito posterior, surgiu mais de um milênio depois, por volta do século 11. Mas, novamente, creiam eles de uma forma ou de outra, a morte do Messias sofredor pelos pecados da humanidade é novamente UM SACRIFÍCIO HUMANO para se expiar pecados de um povo.

DIANTE DISSO, FICA DEFINITIVAMENTE PROVADO QUE O JUDAISMO RECONHECE SIM, QUE DEUS ACEITA SACRIFÍCIO HUMANO PARA EXPIAÇÃO DE PECADOS. Analisemos mais algumas situações:

De acordo com o Talmud, “a morte dos justos expia” (mitatan shel Tsaddiqim mekapperet). Mais notavelmente, os rabinos interpretam a morte de Miriam e Arão a esta luz, explicando que a morte dos justos expia (ver b. Mo’ed Qatan 28a).

 Capítulo Três Moed Katan- 28a

com referência a uma mulher que morreu no parto, (1), mas [a de] outras mulheres pode ser ajustado para baixo [na Broadway].

R`Eleazar diz: [A regra se aplica] até mesmo para outras mulheres, como está escrito: E há Miriam morreu e foi enterrado lá, (2) que mostra que sua morte estava perto dela [lugar] de sepultamento.

R`Eleazar também disse que Miriam morreu também pelo beijo divino [como Moisés]: Nós interpretar a expressão ‘lá’ [usado com a morte de Miriam] no mesmo sentido em que a expressão ‘lá’ utilizado de Moisés. (3)

Por isso, em seguida, é não dito sobre ela [que morreu] pela boca do Senhor? (3)

Porque seria impróprio dizer isso.

Disse R`Ammi: Por que é a conta de morte de Miriam (4) colocado ao lado dos [leis da] novilha vermelha? (5)

Para informá-lo que mesmo que a novilha vermelha proporcione expiação [pelo uso ritual de suas cinzas], o mesmo acontece com a morte dos justo pagar expiação [para a vida que deixaram para trás].

R`Eleazar disse: Por que há [a conta] a morte de Aaron seguido de perto por [conta da alienação de] as vestes sacerdotais? (6)

[Para informá-lo] que, assim como paramentos do sacerdote eram [meios] para efetuar a expiação, (7) por isso é a morte dos justos [propício para a aquisição da] expiação.

O Zohar também apoia esta ideia do poder expiatório do justo com referência a Isaías 53:

Os filhos do mundo são membros uns dos outros, e quando o Santo deseja dar cura para o mundo, ele fere um homem justo entre eles. . . De onde é que vamos aprender isso? Do dito, “Ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades” [Isa. 53: 5]. . . Em geral, uma pessoa justa é apenas ferida a fim de obter a cura e reconciliação para toda uma geração. (8)

Esta mensagem, ou seja, que uma pessoa piedosa pode sofrer de modo a expiar os pecados dos outros, é central para a mensagem da Boa Nova de Yeshua. Quem poderia ser mais santo e mais justo do que o Messias? Seu sacrifício trouxe a liberdade de transgressões. Embora nós merecemos a morte, Ele tornou-se uma fonte de vida para todos os que crêem. Esta mensagem sobre o Messias Yeshua é completamente bíblica e completamente judaica.

Considere a avaliação de Solomon Schechter dos ensinamentos do Talmud sobre o sofrimento dos justos e da expiação:

A expiação de sofrimento e morte não se limita à pessoa que sofre. O efeito expiatório estende-se a toda a geração. Este é especialmente o caso com esses sofredores como não podem, quer em razão da sua vida justa ou pela sua juventude, serem merecedores das aflições que vieram sob eles. (9)

Este ensinamento do Talmud é completado com a seguinte oração na quarta Macabeus (escrito em algum lugar entre 100 aC – 100 dC): “. Faz com que o nosso castigo seja uma expiação para eles. Faça meu sangue a sua purificação e pegue minha alma como resgate por suas almas “(4 Macabeus 6: 28-29). E há grandes estudiosos que argumentam que essa ideia do poder expiatório dos mártires justos remonta ao Akedah, o sacrifício de Isaque; como está escrito em quarta Macabeus, “Isaac ofereceu a si mesmo por uma questão de justiça Isaque não retrocedeu quando viu a faca levantada contra ele pela mão de seu pai….” (10).

Os rabinos acreditavam que Isaac tinha trinta e sete anos de idade quando Abraão foi chamado por D’us para lhe oferecer no Monte Moriá (Gn 22), fazendo de Isaac, o maior herói no evento, desde que ele não resistiu as ações de seu pai. Em um conto do midrash da criação, D’us descreve aos anjos o significado do homem com as seguintes palavras: “Você deve ver um pai matar seu filho, e o filho consentir em ser morto, para santificar o meu nome” (Tanhuma, Vayyera, sec . 18). Outra Midrash compara mesmo Isaque – que carregava a madeira para a oferta em seu ombro – para “aquele que carrega sua cruz em seu próprio ombro” (ver Gênesis Rabá 56: 3). Claro, Isaque não foi realmente sacrificado, mas, apesar disso, os rabinos ensinam que “As escrituras creditam a Isaque TER MORRIDO e tendo suas cinzas derramadas sobre o altar” (Midrash HaGadol em Gen. 22:19), e D’us é visto como TENDO ACEITO O SACRIFÍCIO DE ISAAC”, como se [as cinzas de Isaque] foram empilhados em cima do altar” (11). De acordo com a doutrina de que não pode haver reconciliação sem o sangue ter sido derramado, OS RABINOS AFIRMAM QUE ISAAC, DE FATO, DERRAMOU O SEU SANGUE (12).

O COMPROMETIMENTO DE ISAAC é comemorado pelos judeus ao longo das gerações, até hoje. O Mekhilta de Rabi Ishmael, um midrash recente, comenta sobre o sangue que foi aplicado às molduras de portas em Êxodo 12:13, o sangue que fez o anjo da morte passar sobre os hebreus e poupar seus primogênitos. O Midrash declara: ” ‘E quando eu vir o sangue, passarei por cima de vós’ – VEJO O SANGUE DO COMPROMETIMENTO DE ISAAC” (I, 57), o que significa que não era o sangue dos cordeiros do sacrifício que D’us viu mas sim o “SANGUE” de Isaque. Há até mesmo uma oração judaica que ainda é recitado em um serviço adicional para Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, que diz: “Lembre-se hoje o comprometimento de Isaque com misericórdia para com seus descendentes.”

Como isso é poderoso na memória do povo judeu, e como claramente aponta para o poder expiatório da morte dos justos. Mas, enquanto Isaac não era perfeitamente justo e não chegou a morrer no Monte Moriá, Yeshua nosso Messias era perfeitamente justo e morreu em nosso lugar.

Há também uma visão fascinante que podemos recolher a partir do livro de Números a respeito do poder expiatório da morte do sumo sacerdote. A Torá ensina que o derramamento de sangue profana a terra e o único pagamento aceitável para este derramamento de sangue é o sangue daquele que o derramou. Mas e se um homem matou alguém acidentalmente? Então, ele poderia fugir de seus vingadores e viver em uma cidade de refúgio até a sua morte ou até a morte do sumo sacerdote (Num. 35:28).

O que, então, pagaria pelo derramamento do sangue? Foi seu tempo no exílio, ou foi a morte do sumo sacerdote? O Talmud, “Não é o exílio, que expia, MAS A MORTE DO SUMO SACERDOTE” (13).

A morte do sumo sacerdote, o líder espiritual do povo de Israel, expia o homicídio acidental, funcionando como um substituto para a morte daquele que inadvertidamente matou outra pessoa. O sumo sacerdote, o indivíduo chamado para ser mais próximo de D’us na nação de Israel, intercede em nome do povo, não só através de suas orações, mas também através da sua morte! De maneira semelhante, alguns dos antigos rabinos declararam: “VEJA QUE EU SOU A EXPIAÇÃO DE ISRAEL” (14).

Se, de acordo com a tradição rabínica, os sumos sacerdotes, os rabinos piedosos, santos mártires e os justos de Israel são capaz de expiar o pecado de sua geração, então não faz sentido que o Messias, que é o nosso maior líder e o único mártir perfeitamente santo, iria fazer expiação pela sua nação?

Yeshua, o Messias, é o nosso grande sumo sacerdote! Ele é nossa expiação!

Esta doutrina não é algo inventado pelos seguidores de Yeshua, mas é uma ideia que tem sua base na nossa antiga tradição judaica e nas Escrituras Hebraicas.

Fiquem na Shalom

Rabino Wilson

 

Fontes utilizadas;

Brown, Michael, O Segredo do poder da expiação pela porte de um Justo
http://dtorah.com/otzar/shas_soncino.php?ms=Moed-Katan&df=28a
Torah – Editora Sefer
(2) Num. XX, 1, ‘Não’ a ​​ser repetido duas vezes.
(3) Dt. XXXIV, 5: Assim Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moabe, pela boca do Senhor. Na passagem é ‘aí’ poderia ter sido omitido, e na passagem acima temos também uma supérfluo ‘aí’, o que sugere a shawah chaváh, v. Glos.
(4) Num. XX, I.
(5) Ibid. XIX. Ele é chamado de ‘oferta pelo pecado’ e o uso ritual de suas cinzas proporcionado os meios de purificação, bem como o desejo de santificação.
(6) Ibid. XX, 26, 28.
(7) Lev. XVI, 4, 24, 32, 33. Cf. Zeb. 88b.
(8) Driverr-Neubauer, 2:15
(9) Aspects of Rabbinic theology, 310-311
(10) 4 Macabeus 13:12; 16:20
(11) Sifra, 102c;. b Ta’anit 16ª
(12) Mekhilta d’Rashbi, p 4;.. Tanh Vayerra, sec 23
(13) m Makkot 2:.. 6; b Makkot 11b, ver também Levítico Rabá 10: 6
(14) Mekhilta 2a; m Negaim. 2: 1 em Schechter, 311